O insano da frase acima é o aposentado Fabrisio Cardoso, 39 anos. É integrante de comunidade que procura futebol ao redor do mundo por meio de antenas parabólicas. Ele tem 13 no telhado de casa. "Virei colecionador. Tenho 28 mil partidas em DVD."
Fabrisio é membro de lista de discussão na internet chamada Brasilsat. O grupo tem mais duas mil pessoas cadastradas partilhando diariamente informações sobre eventos esportivos que estarão disponíveis em diferentes satélites.
"Pode-se ver muita coisa boa que não tem por aqui. A TV Pública passa todos os jogos do campeonato argentino e o sinal é aberto. Dá para captar muita coisa diferente. Outro dia estava vendo futebol da Hungria", afirma Sérgio Bruno Trivelato, radialista radicado em Pederneiras, interior de São Paulo. Desde 2004 ele compra antenas para colocar em casa. Já perdeu até as contas. "São oito ou dez. Vamos deixar por oito, vai... Não lembro"
Enquanto falava com o DIÁRIO pelo telefone, Trivelato vivia a expectativa de assistir ao palpitante choque entre Tauro (Panamá) e Marathon (Honduras), pela Copa dos Campeões da Concacaf.
Hoje muitos sinais são restritos. Há alguns anos, era bem mais fácil pegar partidas transmitidas por satélites de emissoras ao redor do mundo.
"Para quem patrocina o evento, é interessante que o sinal esteja disponível a todos. É mais divulgação. É quando entra a questão dos direitos de transmissão que a coisa complica", lembra o pioneiro Flavio Gomes, de 63 anos. Há dez anos o advogado caça imagens de esportes desde sua casa, em Porto Alegre.
Cardápio
Ele garante que ainda há muito por ver para quem ama futebol. Mas é preciso gostar bastante mesmo. "Por um canal do Kuwait você pode ver o campeonato escocês, que não passa aqui. Tem os torneios regionais da Espanha, da Terceira Divisão. Há coisas interessantes", completa.
Os loucos por parabólicas recusam a acusação de que fazem pirataria. Até porque isso não acontece mesmo. Eles procuram apenas pelos feeds (termo para os sinais enviados pelos satélites) abertos. Não os codificados. Eles não são piratas. Só malucos mesmo.
Em busca das partidas de Vanuatu, Fiji...
Os fanáticos das antenas parabólicas se defendem. Não é questão apenas de assistir aos jogos. Há a experiência cultural de ver o campeonato nacional de Andorra, por exemplo.
"Se quisesse nível técnico, preferiria o Real Madrid. A parte do comportamento da torcida, da transmissão, me interessa bastante" , explica Sérgio Bruno Trivelato, que possui uma "sala de guerra " em casa. As imagens das parabólicas se destinam a quatro aparelhos de TV concentrados no mesmo ambiente. "Também tem o monitor do computador, que pode servir como televisão", completa.
Quem diria, o esporte serve, em alguns casos, até para aumentar o conhecimento dos aficcionados. "Tenho boa visão geográfica por causa do futebol. Já presenciei coisas difíceis de imaginar. Como partida disputada na África debaixo de neve" , lembra Fabrisio Cardoso. "Um jogo de futebol na Nicarágua vale não só pelo que acontece em campo. É conjugação de coisas", concorda Flavio Gomes.
Outro aspecto comum aos fanáticos é gravar para assistir depois. Para eles, é um pecado o dia ter apenas 24 horas. Não dá tempo de ver tudo. "Eu gravo, mas sou desorganizado. E muitas vezes não dá para acompanhar os 90 minutos", explica Trivelato.
Mas há os que façam questão de seguir tudo detalhadamente. "Tem duas coisas que não faço. Se pegar partida já iniciada, não vejo. Mas se começar a assistir, vou até o final. Não deixo pela metade de forma alguma", jura Cardoso. Na condição de colecionador, ele está em busca das raridades. "Tem times de Fiji, Vanuatu... Aquelas ilhas da Oceania. Esses jogos são muito raros".
Oceania? Aí já é demais!
Para começar a caçar jogos via satélite
Quem já tem experiência garante que os interessados no assunto podem entrar para o "movimento das antenas" com investimento de R$ 500. Seria o bastante para comprar equipamento que sintoniza a banda KU (R$ 200) e receptor digital em DVD-S (entre R$ 250 e R$ 300). É necessário também contratar um técnico para fazer a instalação e direcionar a parabólica para os satélites.
As grandes, só por encomenda
Quem quiser começar em esquema mais elaborado, pode encomendar a confecção de antena de três ou quatro metros. Alternativa mais barata é ficar atento a leilões de empresas que querem se livrar de equipamentos que não são mais usados. Mas ainda úteis para uso doméstico. "Foi assim que comprei uma das minhas parabólicas", confirma Sérgio Bruno Trivelato.
O que assistir
No futebol da América do Sul
Não é preciso de antena muito potente para acompanhar todas as partidas do campeonato argentino. As imagens são liberadas pela TV Pública, comandada pela presidente Cristina Kirchner. Por meio de canais como Gol TV e outros locais, é possível ver ao vivo a liga chilena. Os torneios paraguaio, boliviano e venezuelano, para os menos exigentes, também estão liberados.
Nos campeonatos europeus
Jogos dos países mais badalados, como Inglaterra, Itália, Espanha e Alemanha, são mais difíceis por causa dos direitos de transmissão. Mas dependendo da antena, é possível pegar alguma coisa, especialmente em canais da América Central, do Norte e do Oriente Médio. Esta última é uma boa alternativa para assistir ao campeonato escocês, que não é transmitido no Brasil. Também dá para achar equipes húngaras, tchecas, sérvias, búlgaras... O satélite é o limite para o seu fanatismo!
Ligas da América Central
Vários confrontos dos campeonatos do Panamá, Costa Rica e Trinidad & Tobago. E ainda tem a Copa dos Campeões da Concacaf com imagens liberadas.
Oriente Médio e África
Arábia Saudita, Kuwait e várias ligas africanas estão à disposição.




09:11
Daniel Oliveira da Paixão
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